6 de dezembro de 2015

Somos Anormais?

por RAYMUND ANDREA, FRC*



Os "amigos" do Mestre disseram: "Ele está fora de si";
São Paulo foi declarado "louco" pelo tribunal superior.



Folheando recentemente um relatório, feito por um eminente cientista médico e psiquiatra, sobre as causas das personalidades anormais, homens e mulheres que se distinguiram nas artes e nas ciências, cujos trabalhos e feitos deixaram uma impressão indelével na história mundial, uma interessante especulação se apresentou: seria a anormalidade uma necessária concomitância da evolução da consciência?

Posto que estamos nos dedicando, de modo especial e para todos os efeitos práticos, à ciência da evolução da consciência, será interessante perseguir essa especulação. A questão de se existe ou não certas anormalidades que acompanham essa evolução tem sido objeto de controvérsia entre muitos e ridicularizada por não poucos, de modo que nossas reflexões podem, incidentalmente, produzir algumas francas expressões de opinião e de experiência pessoal que levarão a dados valiosos.

Foram-se os dias, esperamos, em que se faziam perseguições a indivíduos que professassem coisas consideradas como visões peculiares, que proclamavam incautamente a posse de visão incomum ou exerciam poderes sobrenaturais  diante de um público cético e intolerante. Esses dias, porém, não acabaram de todo. Observe o que diz um eminente escritor:

    "Estamos presentemente tão aguilhoados por tradições ligadas à religião, à lei, à ciência e ao trabalho, que um código artificial de restrição e de proibição tornou-se imposto às nossas personalidades, a tal ponto que, para continuarmos livres, forçosamente temos que não apenas nos abster de nos expressar, mas adotar, ponderadamente, uma atitude artificial de hipocrisia, que em vez de conduzir para a luz é manifestamente falsa e subversiva"

Essa é uma grave acusação contra as autoridades dirigentes e sua severidade é bem merecida. Não faz muito tempo que recebi uma carta em que o escritor, referindo à sua experiência de Consciência Cósmica e sua relutância em falar disto, diz que conheceu um homem que tinha vivenciado o Samadhi e escapou por pouco de ser confinado num sanatório, porque contou essa experiência para seus amigos. Um lamentável estado de coisa, e o alerta é digno de nota. 
O mundo em geral é um pouco mais tolerante nessas questões hoje do que há cinquenta anos. Não é preciso nenhuma classificação; isso é amplamente corroborado por esse mesmo escritor, um dos maiores médicos e psicólogos em sua área.

            " Nesse estágio de nossa evolução, a tendência da humanidade deve ser a de que a tradição ceda lugar ao conhecimento e que o conhecimento ceda lugar à moderação e a uma tolerância mais completa. Viver e deixar viver, conhecer e deixar conhecer, ter e deixar ter, fazer e deixar fazer, todas estas coisas são excelentes guias, embora o verdadeiro mapa para a evolução da humanidade é ser e deixar ser."

Samadhi, etapa da Yoga onde se atinge a suspensão e compreensão da existência, bem como a comunhão com o universo.


A atitude da imprensa mudou um pouco, é bem verdade, ao longo dos últimos dez anos, e agora condescende em relatar sem criticismo o que são considerados casos autênticos de acontecimentos psíquicos e experiências de caráter psíquico. Alguns jornais agora oferecem prêmios aos seus leitores pela narrativa mais impressionante de experiências pessoais dessa natureza, enquanto outros solicitam depoimentos pessoais para a verdade da reencarnação. Até mesmo um cientista, aqui e ali, está se tornando invulgarmente arrojado e caridoso também. 

Um artigo de um professor inglês foi publicado recentemente num jornal popular, no qual ele escreveu:

" Os antigos alquimistas tentavam fazer chumbo virar ouro e, por gerações, foram um bando de cientistas escarnecidos. Agora, entretanto, estamos começando a pensar que, embora seus métodos pudessem ser crus, a ideia deles era razoável."

Se esse professor foi ou não relegado automaticamente por seus pares à categoria dos anormais, isto é uma questão para conjetura.


Deixe-me citar mais um trecho, antes de seguir adiante.


"A principal diferença entre o indivíduo são e muitos dos insanos é que nestes últimos há perda de controle sobre os vínculos de convenções hipócritas e artificiais, perda esta que os coloca em desarmonia com os seus camaradas espertamente mais reservados. Assim, temos o curioso fato de que, quando um indivíduo acredita na palavra do pastor e afirma, com toda franqueza, que acredita que sua alma está perdida ou que ele está em perigo de danação eterna, ele é certificado como insano e relegado a um sanatório. Se ele se alça à região da filosofia, da ciência, da estética ou da conjetura, é visto como um excêntrico; e se é extravagante, inconvencional ou anormal em seu comportamento, ele é ridicularizado pela comunidade, sem consideração ao fato de que talvez ele seja temente a Deus, obediente à lei, trabalhador e um ser humano responsável."


"Essas são apenas algumas das algemas da chamada civilização e, desnecessário dizer, essa tendência, em si, é não somente subversiva, como também explanatória do fato de que muitos gênios do mundo tiveram de ir para sanatórios em busca de proteção contra a intolerância demonstrada por seus semelhantes. Que tais portos de refúgio existam para aqueles que recebem inspirações negadas à maioria é, sem dúvida, algo benéfico, enquanto o público continuar a ridicularizá-los. Seria mais sensato, no entanto, ficar mais atento a tipos como Tom o'Bedlam que deturpam as inspirações e logram o público com suas imitações espúrias. Se a religião, a arte, a ciência e a indústria se tornassem mais tolerantes para com as inspirações e aspirações dos outros, o resultado seria uma considerável redução no número dos que têm de buscar proteção contra as interferências, as restrições e as proibições delas."


Se isso são fatos - e quem pode questioná-los? -, eles mostram indubitavelmente uma forte justificativa para o trabalho ativo em muitos setores de pesquisa em que nós, como Rosacruzes, pusemos nossas mãos. Eles nos justificam na continuação destemida de nossos estudos e na ação direta no serviço ao mundo com imperturbável vigor, com total indiferença e oposição à atitude e às opiniões de dignitários de toda e qualquer base de autoridade.

O que me induziu, particularmente, a tratar desse assunto em relação a nós foi o comentário de um membro encarregado de um grupo. Disseram-lhe que nossos estudos têm uma provável tendência a marcar nossa gente como esquisita ou excêntrica, ou seja, anormal. A réplica foi que nada do tipo deveria transpirar, mas, pelo contrário, dando atenção também à evolução da personalidade interior, ao invés de exclusivamente, como até aqui, ao eu individual, a pessoa deve se tornar, em todos os sentidos, mais normal e ser capaz de funcionar de maneira sã e efetiva tanto no plano objetivo quanto no plano psíquico Divino.

Certamente, sua normalidade consiste em - e só é totalmente assegurada por - esse desenvolvimento paralelo e equivalente. O questionamento que surge nessa questão apenas prova claramente quão comparativamente poucos entre nós se preocupam com esse desenvolvimento dual; e nossa crescente normalidade pela dedicação ao cultivo da alma é vista pela maioria como um desejo de equilíbrio, uma arriscada condição que merece o aspecto derrisório e o ímpeto difamador.

O membro a que me referi é, ele próprio, um dos muitos exemplos de crescente normalidade pelo cultivo da alma. Em muitas ocasiões, ele me disse que nunca poderia ter feito esse ou aquele trabalho bem-feito e preciso, caso apenas o eu individual fosse requisitado; que foram o novo conhecimento e a nova força derivados desse cultivo, como resultado de uma familiaridade mais profunda com a personalidade interior, que garantiram a coesão e equilíbrio de forças um tanto ou  quanto opositoras e o capacitaram a servir aos seus semelhantes de um modo impossível antes dele abraçar esse cultivo.

Não precisamos de nenhuma outra garantia de normalidade crescente do que o fato de podermos ser mais compreensiva e eficientemente úteis no serviço ao mundo através do estudo e da prática dos princípios rosacruzes, em vez de  escolhermos permanecer convencionalmente normais e ignorantes da profundidade e da essencialidade de nossa natureza Divina.

É demonstrável que quanto mais íntimos nos tornamos da ação e da inspiração dessa personalidade interior, mais notável é a facilidade que se pode observar nos membros do organismo objetivo, ao longo de todas as linhas de adequação e uso no plano material. Se de algum modo isso não acontece, a causa deve ser procurada ou no fato da pessoa não ter ido longe o bastante em seus estudos e em sua compreensão da ciência que ela adotou, ou no fato de, por assim dizer, ter tentado ir além daquilo que podia; ela se empenhou além daquilo que seu ponto específico de evolução justifica e há tensão ou pressão que resulta num desajuste temporário, com uma consequente emergência ligeiramente errática. Nos dois casos, as causas são apenas temporárias.

No primeiro caso, um progresso maior na ciência desenvolverá uma segura e valiosa lucidez; no segundo, um refreamento da impaciência, por meio de desenvolvimento específico e maior confiança na natureza do método de avanço gradual e metódico, regulará devidamente os processos de expressão e erradicará quaisquer tendências possíveis de críticas.

Obviamente, falo mais para o neófito do que para o estudante adiantado na Senda. Este último há muito tempo resolveu essa questão para si mesmo e não é perturbado pelos pontos de vista ou pelas insinuações do ignorante. Ele sabe que quem quer que vá contra a corrente da opinião geral terá sua sanidade questionada em algum momento. Ele sabe, por experiência própria, que existe na alma despertante algo de natureza tão poderosa que até mesmo seus críticos acham difícil acreditar em suas próprias mentiras. Do mesmo modo, eles podem criticar a glória inesperada que flui do céu noturno e acusar a natureza de extravagância anormal.

A divindade da alma, através das influências benignas e libertadoras da natureza espiritual, tem a qualidade do inesperado daquela singular e gloriosa expressividade que pertence à natureza; quando vêm aqueles momentos em que uma nova palavra é comunicada e uma ação realizada, é hora de os homens de reputação científica e tecnológica verdadeiramente anormal fazerem recuar os mais convencionalistas.

A alma não dará a eles mais atenção do que a natureza dá às folhas mortas do outono. Eles quebram a cabeça e consultam os livros didáticos para nada. A palavra foi dita e a obra foi feita. A inspiração se espalhou pela terra e passou como luz nas almas viventes que estavam à sua espera e precisavam de um novo ímpeto em sua fé. O homem avançado sabe disso e é indiferente aos gritos da maioria dita "sã".

A questão, porém, não é tão fácil para o neófito. Não é fácil para ele sentir-se um tanto fora de si quando, em seu círculo imediato, em casa ou fora dela, ele é objeto de patético escrutínio e alvo da língua alheia. Conheci casos em que nossos estudantes foram compelidos a ir furtivamente para sua comunhão com Deus, como se estivessem evitando ser descobertos pelo cometimento de um crime. É alguma surpresa que eles corram o risco de serem considerados anormais?

Conheci esposas submetidas à amarga invectiva e perseguição de seus maridos, por terem descoberto no cultivo da alma a única coisa que tornava a vida tolerável para elas. Julgue, entre os dois, onde a normalidade está. Essa é uma das maiores indignidades que podem ser infligidas à natureza humana indefesa.

A origem do criticismo que muitos neófitos experimentam nesse caminho, proveniente dos que os cercam, pode ser encontrada neste profundo axioma que foi muitas vezes enunciado na literatura oculta: se uma atenção concentrada é direcionada para a alma  e se persiste num curso de ação mais elevado, algo com a natureza de uma revolução psíquica na personalidade do homem transpira e reage, mais ou menos poderosamente, segundo sua força e habilidade inatas, sobre a inteira concatenação de suas circunstâncias e de seus relacionamentos. Se ele é ardoroso e decidido, a vida da sua alma atua com dramática pressão sobre suas idéias e ações enraizadas, e um rápido reajuste torna-se imperativo.

Isso é tão natural e insistente que ele mal percebe quão marcante a mudança nele parece para os outros. Mas a encruzilhada foi atingida e uma escolha tem de ser feita. O problema agora não está simplesmente na aceitação mental de um novo ponto de partida na vida que lhe concerne pessoalmente, como alguém que pode nutrir uma opinião contrária de seus amigos sobre uma questão de arte ou política e nada dizer sobre isto: não, a alma sob cultivo espiritual afeta toda a personalidade do homem vivo e atuante em sua relação com os outros, e se eles não tiverem uma mente aberta o bastante para dar uma correta interpretação aos valores alterados dele, darão, obviamente, uma errada.

E nos contatos gerais da vida diária, a interpretação errada será a mais comum. Pois, por mais eficiente que o neófito encubra de silêncio o seu colóquio com o divino, os efeitos desse colóquio se imprimirão nele para serem lidos por todos. O medo que o assalta é de que, se persistir em seu caminho, tenha de perder amizades e simpatias que até então significam muito para ele.

Falo compreensivamente dessas coisas porque eu próprio as vivi; e sei que não há uma só abertura que seja para concessões em relação a elas. Lembro-me quando, no limiar da vida adulta, abracei a vida oculta com total aceitação e vivi todas as consequências adversas em meu ambiente ao fazer isto. Todos os fluxos da vida dirigiram-se para o alto, como que por inspiração predestinada, e as reações externas foram tão críticas e inquietantes quanto foi definitiva e inalterável a reconstrução interna.

E ao jovem aspirante que está enfrentando contingências similares, digo isto: acho difícil de imaginar como que alguém que experimentou o chamado decisivo do espírito dentro de si possa retardar ou retroceder ao nível morto do eu puramente mental, devido a qualquer criticismo ou desconforto temporário que ele possa encontrar na perspectiva de segui-lo. Isso significaria perder deliberadamente o mais rico ganho que uma encarnação pode propiciar, qualquer que seja o valor que ele atribua às coisas que teme perder.

O chamado da alma despertante nunca vem por acaso; vem quando o indivíduo está realmente pronto e apto a dar um passo à frente na evolução, um passo normal e necessário, decretado pelo Carma. Ele pode duvidar um pouco de sua prontidão e habilidade, de tempos em tempos, quando as coisas externas são hostis e ameaçadoras; mas o chamado é um aviso inequívoco de que um ponto crítico foi alcançado na vida individual; e sem parecer estar pressionando demais, peço ao aspirante que podere sobre a gravidade da perda para si mesmo, a longo prazo, se, por quaisquer considerações pessoais quanto as opiniões dos outros, ele se recusar a aprovar com toda liberdade possível nas circunstâncias resultantes, a indução intuicionante que o instiga a trilhar a Senda.

Será útil lembrar-se que os evolucionistas espirituais são uma minoria comparativamente pequena e, provavelmente, assim continuarão por algum tempo ainda. Ele não tem apenas que contender com as diferenças pessoais resultantes da educação de seus poderes para propósitos superiores; existem forças opostas ao seu redor e, portanto, ele não deverá ficar surpreso nem facilmente intimidado pelas correntes antagônicas que muitas vezes - e ele mal sabe dizer como - parecem combatê-lo.

Esse fato sempre foi salientado por membros nos estágios iniciais da Senda, mas um encorajamento adequado e o transcurso do tempo conduzem-no a uma certeza mais profunda e uma força maior para fazer face à oposição circundante. Alguns desses membros concordarão comigo quando digo que um dos testes mais duros que eles têm de enfrentar é a consciência da solidão em seus estudos, em suas respectivas circunstâncias. Eles estão conscientes de estarem ficando, em muitos aspectos, cada dia mais radicalmente diferentes daqueles com os quais convivem, e não há ninguém a sua volta com quem possam se expressar.

É assim mesmo; e em algumas circunstâncias, isso é inevitável, mas apenas por algum tempo. À medida que o conhecimento aumenta e o aspirante responde a ele, oportunidades de servir se apresentam e aquilo que não pode ser comunicado em palavras será poderosamente expresso em ação. É a ação correta, não importa quão incomum possa ser em caráter, que irá desmanchar todas as pequenas aparências de anormalidade e peculiaridade, que o não iluminado tanto gosta de assinalar.

Por último devemos mencionar que não precisamos de investigadores médicos ou científicos avançados para nos assegurar que, afinal de contas, não somos anormais por nos esforçarmos em seguir o Mestre, de maneira compreensiva e científica, e fazer as tarefas que Ele fez. Há muito tempo, damos a eles um exemplo que, embora relutantemente, estão começando a imitar. Também não há nenhuma egomania implícita nessa asserção. Como diz o autor:

"Notamos que a humanidade está subindo gradualmente a escada de uma evolução emergente rumo à autorrealização, uma realização do eu, porém como parte integrante de um todo maior. A egomania implica crença no eu como 'o grande único', ao passo que a autorrealização significa evolução."

 Obviamente, a egomania tem estado no outro lado, não no nosso. E somos profundamente gratos pela concessão liberal que ele nos faz, ao dizer que "uma filosofia do infinito está, porém, longe de ser uma fonte de aberração do pensamento, terminando em verdadeira insanidade". Nada mais há a se acrescentar sobre a questão da anormalidade. Não concluí, entretanto, a questão da crítica em relação ao neófito e pretendo lidar especificamente com isto num artigo posterior. 

* Extraído da edição de junho de 1930 da revista Rosicrucian Digest.


18 de outubro de 2015

Os quatro inimigos do homem de conhecimento







O antropólogo Carlos Castañeda escreveu doze livros contando sua saga e seu aprendizado com o brujo Don Juan no México. O primeiro desses livros, conhecido no Brasil como A Erva do Diabo, é o mais conhecido. O título original da obra é “The Teachings of Don Juan”. Em português seria “Os Ensinamentos de Don Juan” se o título original fosse respeitado e não houvesse uma distorção para fins mercadológicos.
Nesse livro, que marca o início do aprendizado de CastañedaDon Juan lhe diz que o homem possui quatro inimigos que deve saber enfrentar para tornar-se um guerreiro, um homem de conhecimento. Esses inimigos são: o medo, a clareza, o poder e a velhice. Nesse texto, tentarei apresentar uma interpretação própria desses ensinamentos. Ao mesmo tempo que busco coerência com a obra original, pretendo mostrar o que entendo sobre esses inimigos, tomando a liberdade de apresentar a apropriação que fiz desses conceitos.
O primeiro dos inimigos é o medo. Toda vez que buscamos um novo caminho de crescimento, ele aparece para nos testar. Há medos de toda ordem e algumas vezes ele chega a se tornar um pavor, um desespero. Um formidável inimigo que pode tornar-se um grande aliado: se não temos medo, nos tornamos pessoas irresponsáveis; se ele paralisa a nossa busca, nos tornamos covardes. Entendo que o medo é constitutivo da vida humana e temos que caminhar, mesmo sentindo medo. Ele pode ser controlado e exige coragem, mas nos transforma em pessoas alertas: guerreiros sempre à espreita.
Muitas pessoas deixam de viver, de lutar pelo que acreditam, de crescer como indivíduos porque o medo as paralisa, não as deixa seguir em frente. Medo do que vai acontecer no futuro, medo de se machucar, medo de se arrepender, medo de sofrer, medo de experimentar, medo de buscar novos horizontes, medo do que os outros vão pensar: medo de viver! E o medo faz elas ficarem na inércia, na repetição, no caminho do comodismo, no conforto do que sempre foi. Mas isso não é crescimento, é estagnação. Para crescermos, temos que ter consciência do medo, saber que ele existe, que ele pode ser vencido, agir com coragem, seguir em frente diante da incerteza e torná-lo um excelente aliado!
Se conseguimos vencer nosso primeiro aliado, chega o segundo: a clareza. Aqueles que foram vitoriosos em sua luta contra o medo, acabam sentindo, vendo, percebendo, pensando e agindo com uma clareza muito maior. A maioria ficou no seu casulo paralisada pelo medo, aqueles que enfrentaram conseguem a clareza: o dom de ver aquilo que a maioria não ve, já que o medo as impediu de sair do lugar comum, do senso comum. Mas a clareza também tem seus perigos e muitos sucumbem.
Não é uma tarefa fácil lidar com a clareza em um mundo de cegos. Ver aquilo que outros não vêem é um desafio a ser enfrentado com serenidade e coragem. A sensação de isolamento é forte, um grande desafio a ser superado.
O que se pode ver com a clareza ninguém quer ver ou não consegue; o que outros vêem como verdade é apenas uma ilusão para quem tem a clareza. Muitos se assustam com o que vêem e outros começam a crer que são seres superiores por ter algo que a maioria não tem. Alguns se perdem em sua vaidade; outros não suportam o que vêem e perdem o equilíbrio mental; outros desistem de enxergar por sua visão parecer insuportável. Se há o dom para ver os Céus, com ele vem a visão das sombras. E muitos preferem não ver mais, são vencidos pela clareza ou pelo medo: os inimigos andam juntos.
Mas a clareza também pode ser utilizada como um poderoso aliado. Com firmeza, determinação e equilíbrio, podemos viver na loucura controlada. Saber que muito do que é considerado verdade é apenas uma loucura, uma construção histórica que em breve irá desabar também. E tentando ajudar nossos semelhantes a ter clareza também: para ter a visão que possibilite manter e ampliar o que é da Vida e lutar contra o que é da morte. Saber que quase tudo é uma loucura, mas manter a serenidade perante essa loucura.
Quando se vence o medo e a clareza, surge o terceiro inimigo: o poder. Com a capacidade de controlar o medo e com a poderosa visão que a clareza proporciona, naturalmente se adquire poder. A capacidade de influenciar outras pessoas, de transformar estruturas, de atingir objetivos com facilidade, de obter percepções extra-sensoriais, de mobilizar e canalizar intensas energias. E o poder é sedutor, um inimigo perigoso, tamanha sua força.
Depois de ter vencido o medo, conseguido a clareza e obtido poder, começam as tentações e testes. E muitos sucumbem. Ao invés do poder ser utilizado para abrir caminhos para a evolução humana e da sociedade, torna-se uma habilidade usada exclusivamente para proveito próprio, para satisfazer o ego. Surge a falsa necessidade de comandar, de ser um líder insubstituível, de ter a certeza sempre, de ter súditos e admiradores, de colocar as pessoas e processos sob controle pessoal. E esse processo nunca cessa: é preciso cada vez mais poder para se manter no poder.
E as pessoas se tornam escravos do poder, se perdem em seu ego e se tornam pessoas frágeis. Pessoas que externamente podem até ser vistas como poderosas, mas são crianças profissionais: brincam com a vida alheia sem responsabilidade, sem ter consciência de que os fantoches são eles. Na primeira decepção ou quando enfrentam um adversário de valor, colocam a culpa no mundo pela sua própria fraqueza: o poder sugou toda sua energia.
Esquecem que cada caminho é apenas um caminho e que cada um deve buscá-lo dentro de si, nos seus corações. Pode-se até auxiliar outras pessoas, mas ninguém tem autoridade para dizer para alguém qual é o melhor caminho a ser seguido. Isso cada um deve descobrir por si. O poder é realmente tentador e muitos sucumbem, talvez na classe política isso seja mais evidente, mas isso acontece em todas esferas da vida humana.
Só que o poder também pode ser utilizado como um aliado. Essa capacidade e esse brilho que o poder traz podem ser canalizados para o Espírito, pode-se agir de acordo com o Coração, pode-se colocar como um instrumento das Forças da Vida. Pode-se utilizar essa capacidade para construir um mundo melhor para todos, para transformar positivamente a vida dos que cruzam nosso caminho, ajudar as pessoas acender o próprio fogo interior, a transformar as estruturas da repetição, a criar a Diferença.
Enfim, pode-se usar o poder para quebrar os processos de reprodução desse descalabro social e ambiental: creio que é esse o desafio para quem adquiriu e está adquirindo poder. Um enorme desafio e que não se resolve de uma vez, é sempre um caminho, mas um caminho ao mesmo tempo individual e coletivo, um caminho com o coração, uma busca pela impecabilidade. É a ânsia pela perfeição, pela justiça, pela verdade. E isso se reflete em atos cotidianos, não apenas em grandes obras!
Por fim, há um inimigo que não pode ser vencido: a velhice. Todos, uma hora ou outra, sentirão suas marcas. Na verdade, podemos interpretar a vida como um processo de envelhecimento constante: de bebês à crianças, de crianças a adolescentes, de adolescentes a jovens adultos, de jovens adultos a jovens de meia-idade, da meia-idade à terceira idade. A velhice é o maior inimigo do homem, vai atingir os que sucumbiram ao medo, mas também aos que não sucumbiram; vai atingir os que se amedrontaram perante a clareza, mas também aos que conseguiram suportar a visão; vai atingir aos que adquiriram poder para o coletivo, mas também aos que se seduziram por suas falsas promessas.
Só que a velhice, que vai aos poucos limitando nosso corpo físico, traz a sabedoria caso seja enfrentada com dignidade. E isso dependerá de toda uma vida: que caminho escolhemos, quem escolhemos para caminhar ao lado, que decisões tomamos, de quem nos afastamos e de quem nos aproximamos, como cuidamos do nosso corpo, do nosso espírito e da nossa mente. É um novo desabrochar e não uma decadência. O que não podemos é deixar nosso espírito envelhecer: ele é eterno!
Podemos envelhecer com dignidade e acho que o melhor modo de fazer isso é disseminar sementes: para que as futuras gerações e os mais novos possam ter modelos em que se apoiarem, com base em belas palavras e ações que só a experiência ensina. Enfim, construir uma trajetória nesse planeta que não seja apenas sobrevivência e voltada para o próprio umbigo, mas construir uma vida que seja uma verdadeira obra de arte: uma busca por uma conduta impecável, um foco claro em iluminar a escuridão! E para isso não há um caminho pronto nem fórmulas pré-estabelecidas, há tantos caminhos quanto existem corações, cada um deve achar o seu.

(por Dr. Flávio Gikovate )
(Arte: “Castaneda” por Rose Feldtown) 
 

8 de setembro de 2015

Reconhecendo o Bem




“… uma verdade que o homem deve inscrever na alma como uma elevada moral: Quando vires no mundo algo mau, não digas eis algo mau e, portanto, imperfeito, mas pergunta: Como posso evoluir para o conhecimento de que, num contexto superior da sabedoria existente no Cosmo, esse algo mau será transformado em algo bom? Como chegarei a dizer que o fato de eu ver aqui algo imperfeito ocorre por eu não estar ainda avançado a ponto de ver também a perfeição desse algo imperfeito? Ao ver algo mau, o homem deve contemplar sua própria alma e perguntar-se: Como é que não estou tão avançado para, ao me defrontar com algo mau, reconhecer nele algo bom?”
Rudolf Steiner – O Evangelho Segundo João

3 de agosto de 2015

: :

Viaja de ti até ti mesmo, tratando de ser o que será.
A única maneira de avançar é extrair a voz da palavra, extrair o ato da intenção, extrair o 
amor do apego e o desejo de seu objeto imaginário.
Penetrar o diâmetro do túnel da mente, perdendo mil e uma peles, não ser este nem o outro, 
uni-los em um só circulo, buscar a visão oculta atrás da visão
De olho em olho ascender até a última consciência
O artificial é levado pelo vento, como um enxame de pétalas.
Então circulará em suas veias o licor das entranhas cósmicas.
Arruinando os cegos, integrando os bosques nus à árvore encouraçada.
Sua pátria será somente as pegadas de seus pés descalços e sua idade, a idade do mundo.
Enquanto tiver em sua frente uma definição, nunca mais em seu peito a víbora da inveja.
Nunca mais entre as suas pernas o desejo de um corpo sem alma.
Elegerá por caminho o impalpável nevoeiro.
Vencerá o espelho que compara.
Demolirá a pirâmide de ancestrais que leva incrustada em suas costas.
A ascensão e a queda se amalgamam.
Os olhos que veem por fim se veem.
Prazer incessante, orgasmo eterno, silencio que é a soma de todas as músicas.
Deus como um espinho de árvore gira sobre a palma de sua mão.
Te integras à espiral de astros.
No umbigo do mundo sua alma se banha.
Cada um de seus fios de cabelo se amarram no céu.
Uma nuvem plena de chuva colorida alimenta o choro de seu êxtase.
Floresce em sua boca uma árvore branca e negra.
Seus dedos traçam hieróglifos de fogo.
Este é o momento em que os limites se abrem
Como as pétalas de uma flor que cresce nos pântanos.
O que foi uma senda negra se espatifa em raios de luz.
Terminam as fronteiras, as definições ficam esfumaçadas.
Ninguém pode se comparar ou julgar.
Calma eterna.
Os Egos ilusórios deixam de ser ilhas e se entregam ao êxtase do coração único para se 
dissolverem em grandes batimentos de amor.
A fragrância de cada ser zomba das ideias cristalizadas.
O calor essencial dos sentimentos afetuosos.
Estrela brilhante dos atos bondosos.
O inesquecível tremor da paixão, isso é eterno.
Não vem, nem vai, é uma carícia daquilo que sempre é.
Quero que essas palavras beijem seus olhos.
Que a planta de seus pés acaricie o solo onde estão.
Que seu corpo desenhe no ar labirintos sagrados.
Nada é inútil, tudo serve para alguma coisa.
Uma busca que só pode terminar quando nos convertermos no que buscamos.
O filósofo se converte na verdade.
O artista se converte na beleza.
O nadador se converte na água
O poeta abre uma porta em seu poema.
Possa uma água sem fim inundar a sua memória
Que os ossos do crânio se cubram de palavras sagradas.
Que no lugar de dinheiro se troquem mariposas brancas.
Cada instante é a proa do tempo total
Esse instante é o momento eleito
Hoje a eternidade.
Seu corpo é infinito.
Seu eu é a divindade.
Abdica da memória.
Que o mundo dos gananciosos se torne invisível
Sente ternura por cada mente que se despreza
Seja como uma árvore que toma a forma do canto dos pássaros que a habitam.
Mãe e pai nosso que estão na terra e no céu.
Purifica e santifica nossos nomes
Façamos parte de seu reino
Faça sua vontade no nosso corpo como no nosso espírito
A consciência prometida para o futuro nos dê hoje
Recompense nossos esforços, assim como nós recompensamos os nossos colaboradores.
Nos dê entusiasmo para que continuemos a fazer o bem
Porque é paz, a bondade e o amor nesta hora eterna, amém.



Alejandro Jodorowsky

23 de julho de 2015

Níveis

Somos compostos por diversos níveis. Desde o mais sutil até o mais denso. Em ordem: monádico, intuicional, racional, emocional, energético sutil, energético denso e kundalínico. 
Nós seres humanos (em teoria) estamos no nível racional. Teu cachorrinho é o emocional. Uma plantinha está no energético sutil e uma pedra no energético denso. Soube disso numa palestra com o queridíssimo Professor Rô. 

Gosto de explicar isso pra quem quiser entender. Concordo e me identifico com essa classificação. Dentro de mim faz completa lógica. Organiza meus conhecimentos e minha forma de entender o mundo. 

Não somos UMA das sete fases. São níveis de percepção. Você entende o universo a sua volta de forma completamente diferente de seu animalzinho de estimação porque - além de kundalínico, energético denso e sutil e emocional - você também possui a ferramenta do racional. São vias de acesso que somam, não que excluem. 


Uma distância ainda maior está entre você e a "alface nossa de cada dia". Ei, antes de me chamarem de "assassina sanguinária de alfaces inocentes" por ser vegetariana... Calma lá! Sim, as plantas respondem aos estímulos externos (como conversas e músicas) mas não de forma emocional e sim energética. Existem energias das mais variadas frequências. Desde elevadérrimamente sutis até mega hiper supra densas. Se você xingar uma planta ela não vai ficar triste, mas sim responder ao teu estímulo energético negativo. 



Grandes ícones históricos como Jesus, Shiva e Buda - em teoria e generalizando - teriam entrado nos estados intuicionais e monádicos. Crianças índigos e cristais (ou, como queira chamar "espíritos mais evoluídos") estariam respectivamente nesses tais estados. Boa hora para contar que o estado monádico se divide em dois: um em que a personalidade ainda se manifesta e outro em que não (o EU deixa de fazer sentido e de existir).
Uma boa forma para entender é a exemplificação (vou resumir em racional, intuicional e monádico - afinal, os "inferiores" todo mundo conhece e entende muito bem ): 
°Racional- O EU se vê como algo completamente independente das pessoas e das coisas a sua volta, o interesse está no individual. 
°Intuicional- O EU se vê como algo completamente interligado às pessoas e às coisas a sua volta, o interesse se encontra no coletivo.
°Monádico- O EU é as pessoas e as coisas em volta. 


É importante deixar bem claro que independente do seu nível de consciência, somos todos parte de uma mesma equação matemática e exata. É extrema pretensão achar que se tem mais valor que outra pessoa (ou mesmo que uma cenoura ou pedra). Me assusto com esses movimentos "new age" que estão mistificando e hierarquizando cada vez mais um processo natural e contínuo que é a tal evolução. Faz parte da natureza do homem cada um (e todos eles) se acharem únicos e muito especiais (resumindo: cada um se acha diferente e além de todo o resto). Mas isso assumir - já não basta todas as religiões que já temos - uma visão dogmática e seletiva... Ai, me dói o coração. 



Cuidado com tuas certezas. Elas te servem para evoluir, não prender. Sei que isso que vou falar pode parecer coisa do tipo "salvem as baleias", mas... Procure teu amor incondicional. Tenha a flexibilidade, força e humildade para estar aberto aos seus processos. Encontre sua fé dentro de si, e independente de qualquer religião ou seita. A fé que determina as religiões, e não o contrário. 



Nicole Koll

13 de janeiro de 2015

ZAZ - "París" 2014 (Álbum Completo)


Paris é o terceiro trabalho de estúdio da francesa Isabelle Geffroy, mais conhecida pelo nome artístico Zaz. A artista se tornou conhecida com a canção Je veux, single de Zaz, seu primeiro álbum; e pelo estilo único de suas canções, que mesclam a tradicional música francesa com o gypsy jazz.


Faça o Download do Álbum Completo =======> AQUI   [ Não contavam com minha astúcia! ;-) ]



10 de janeiro de 2015

Virgindade - Sou Virgem

:: conhecemos muitas Mulheres Virgens ::


"Antigas sacerdotisas da lua eram chamadas de virgens. 'Virgem' significava não-casada, não-pertencente a um homem - uma mulher que era uma em si mesma. A palavra deriva do Latim, significando força, habilidade, e mais tarde foi aplicada a homens: viril. Ishtar, Diana, Astarte, Isis eram todas chamadas virgens, o que não se referia à sua castidade sexual, mas à sua independência sexual. E todos os grandes heróis de culturas passadas, míticos ou históricos, eram ditos serem nascidos de mães virgens: Marduk, Gilgamesh, Buda, Osiris, Dionísio, Genghis Khan, Jesus - todos eram reconhecidos como filhos da Grande Mãe, a Força Original, e seus enormes poderes provinham dela. Quando os Hebreus usaram a palavra, e no original em Aramaico, significava "mulher jovem", "donzela", sem conotações de castidade sexual. Mas mais tarde tradutores cristãos não puderam conceber a "Virgem Maria" como uma mulher de sexualidade independente; eles distorceram o significado para sexualmente pura, intocada, casta" -- Monica Sjöö, The Great Cosmic Mother: Rediscovering the Religion of the Earth.

"Ancient moon priestesses were called virgins. ‘Virgin’ meant not married, not belonging to a man - a woman who was ‘one-in-herself’. The very word derives from a Latin root meaning strength, force, skill; and was later applied to men: virle. Ishtar, Diana, Astarte, Isis were all all called virgin, which did not refer to sexual chastity, but sexual independence. And all great culture heroes of the past, mythic or historic, were said to be born of virgin mothers: Marduk, Gilgamesh, Buddha, Osiris, Dionysus, Genghis Khan, Jesus - they were all affirmed as sons of the Great Mother, of the Original One, their worldly power deriving from her. When the Hebrews used the word, and in the original Aramaic, it meant ‘maiden’ or ‘young woman’, with no connotations to sexual chastity. But later Christian translators could not conceive of the ‘Virgin Mary’ as a woman of independent sexuality, needless to say; they distorted the meaning into sexually pure, chaste, never touched." —Monica Sjöö, The Great Cosmic Mother: Rediscovering the Religion of the Earth.